quinta-feira, 29 de junho de 2017

Agora...o "passa culpas"

Chegámos ao 12.º dia após a catástrofe. Nem uma demissão: todos continuam nos seus cargos. Mas o passa culpas a que assistimos na televisão e que aqui previ, mostra bem o que podemos esperar do futuro.
Na Comissão Parlamentar aconteceu no mesmo. A ministra, cujo rosto não havia sido preparado para as luzes da ribalta televisiva, foi submersa por uma onda de perguntas, a que na maioria dos casos não soube responder. E isto quando já se sabe, que desde a Protecção Civil, ao SIRESP e ao MAI, tudo teve falhas? 
Constança Urbano de Sousa apenas continuava a repetir que não se demitia porque isso não resolveria nada. Há um ano atrás, quando estava de férias, ouvi-a dizer o mesmo, numa situação semelhante, mas menos grave.
Será que a senhora ministra desconhece o que se chama de “responsabilidade política”?

HSC

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Miguel Beleza


Ontem fui à missa de corpo presente por intenção de Miguel Beleza, um meu colega que tinha 67 anos e uma boa parte da vida para viver. Nunca fomos íntimos, mas trabalhámos juntos no Banco de Portugal e posteriormente a profissão e amigos comuns, haviam de  proporcionar que nos encontrássemos mais vezes.
Para além da sua enorme competência tinha um raro sentido do humor, muito pouco frequente em pessoas que ocuparam os cargos que ele ocupou.
Há menos de quinze dias trocámos um abraço a propósito da estima que ele tinha pelo meu filho Miguel. Mal eu sabia que duas semanas depois abriria a televisão com a noticia da sua morte, numa altura em que o país ainda poderia contar com as suas opiniões desassombradas. Vai fazer falta às centenas de amigos que ontem encheram a Igreja do Campo Grande, numa prova iniludível do apreço que lhe dedicavam.
Que descanse em paz!

HSC

terça-feira, 27 de junho de 2017

Agora ...a Caixa Negra da Proteção Civil

O jornal Público que teve acesso aos dados da "caixa negra" da Proteção Civil revelou o caos que rodeou o combate ao incêndio de Pedrógão Grande. 
Desse relato fica claro que o sistema de comunicações de emergência, o tristemente famoso SIRESP é, outra vez, o suspeito de serviço.
Ao final da tarde de sábado, dia 17, quando as chamas ganharam fôlego e começaram a chegar mais pedidos de ajuda, "as comunicações falharam quase por completo, impedindo o socorro às populações. E causaram o caos entre as diversas forças envolvidas no combate".
Apesar destas informações serem do conhecimento do primeiro-ministro desde dia 23 do corrente, o certo é que só ontem à noite a ministra Constança Urbano de Sousa, fez sair um comunicado no qual o "MAI exige respostas rigorosas ao funcionamento do SIRESP". Só que isso não basta. Talvez o mais importante seja saber como ele é gerido.
Porque senão fica um laivo de suspeita de que o Governo só terá  decidido engrossar a voz quando soube que um jornal ia publicar, umas horas depois, aquilo que a ministra e o primeiro-ministro já sabiam há vários dias, mas ainda não nos tinham dito.
As respostas que o PM já conhece parece não deixarem dúvidas sobre o que falhou. Que, em síntese, se resume a factos: o SIRESP não funcionou, a GNR não tinha meios, os avisos do IPMA foram desvalorizados, a estrutura da Proteção Civil teve/tem problemas.
Entretanto, no Parlamento, prepara-se uma comissão técnica independente para apurar o que falta e a ministra pede ainda mais inquéritos...
Torna-se cada vez mais evidente que será muito difícil, perante o que já se sabe - e sobretudo perante 64 mortos - não retirar consequências políticas do que se passou. A ministra da Administração Interna tem a cabeça no cepo, assim como o seu secretário de Estado. Mas, suprema ironia, Constança Urbano de Sousa pode acabar por sair do Governo por causa de um sistema de comunicações que foi comprado pelo primeiro-ministro, quando este era MAI. É a política na sua forma mais trágica!

HSC 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Agora...falta o apoio psicológico

Como era de esperar o INEM trouxe consigo o apoio psicológico de emergência tão necessário em época de catástrofes. Mas num rápido zapping que, no escritório, fiz sobre mais uns comentários acerca dos fogos, apercebi-me que a urgência tinha passado e, com ela, teriam ido os psicólogos do INEM.
Ouvido um especialista sobre o assunto, este afirmava que a interrupção deste tipo de apoio poderia ser fatal e conduzir a eventuais suicídios, nos casos de pessoas mais frágeis.
Parece que hoje iria haver uma reunião - ah! as reuniões é que nunca falham - para decidir como e quando e de que modo se irá processar este apoio. Mas duvido que se consiga leva-lo a casa de cada um. E se assim não for, é muito claro que a maioria das pessoas não encontrarão coragem de pôr pés fora de casa e interiorizarão uma dor infinda, sem solução!

HSC

sábado, 24 de junho de 2017

Agora... é sem limites e sem medos.

Nas palavras dirigidas ao semanário Expresso, o Presidente da República pede que seja apurado "sem limites ou medos", tudo o que se passou no inferno dos fogos.
A expressão "sem limites" e "sem medos", agora usada por Marcelo, difere bem do seu assertivo e categórico  “era impossível ter feito mais”, usado há uma semana.
A expressão hoje utilizada era a que eu esperava dele, nesse sábado, quando, pela primeira vez, se dirigiu aos portugueses.
Chegou a altura em que o Presidente enfatiza que é tempo de se apurar - estrutural ou conjunturalmente - o que possa ter causado ou tido influência no que aconteceu ou na resposta dada. É tardia a intervenção, mas correcta. 
É esta a atitude que todos esperamos dele. Como esperamos que ele seja o garante – já aqui o referi antes –, o atento observador de que nada disto terá sido em vão. Que esqueça, por momentos, os consensos impossíveis  - ele conhece, melhor que ninguém, os partidos que temos - e “exija, lembre, insista”, que os mortos merecem ser honrados.
O Presidente da República não define prazos, mas pode e deve estar vigilante de que é preciso não deixar esvaziar o significado, ou retirar utilidade às conclusões. E, se o não fizer, se por momentos o descurar, creia que nada nem ninguém lho irá perdoar. Nem o seu crédito de afecto...
Quanto a António Costa exige-se-lhe que peça responsabilidades a quem as possa ter tido, atenta a hierarquia daqueles a quem o assunto respeita. Sem apelo nem agravo. Porque a morte é das poucas prerrogativas que, em política, pode ser tremendamente adversa.

HSC

quinta-feira, 22 de junho de 2017

E agora?

Terminaram os três dias de luto e o minuto de silêncio. Amanhã ou depois, os fogos terão eventualmente terminado. E ficará apenas a gente indispensável ao rescaldo dos mesmos. As televisões irão progressivamente voltando ao futebol e aos debates de arredonda mês. Por mais dois ou três dias ainda se citará o desastre.
Depois cada uma daquelas povoações ficará submergida num silêncio pesado, trágico, ensurdecedor. Os presidentes das câmaras virão a Lisboa tentar que se não esqueçam deles.
E no que resta de cada aldeia, algumas pessoas ficarão silenciosas à espera de que se lembrem delas. Outras irão, finalmente, cair em si e no drama de terem perdido tudo. Ficarão tristes e sem forças para reagir. Outras, ainda, irão para as Igrejas que restam, rezar ao Senhor.
E pouco mais se saberá desse pequeno mundo que, durante semana e meia, esteve sob os holofotes. Em compensação as " cabecinhas pensadoras", a elite que nos dirige, enfim, os especialistas, dedicar-se-ão a pensar o problema até ao próximo mês de Junho de 2018, porque há autárquicas e é preciso fecha-los num gabinete e calar o assunto.
E agora? Agora, é isto que se vai passar...

HSC

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Agora, um minuto de silêncio


Depois dos três dias de luto nacional seguiu-se, hoje, um pouco por todo o país, um minuto de silêncio pelas vítimas dos incêndios. No Parlamento os trabalhos desta quarta feira foram mesmo substituídos por uma sessão solene de pesar pelas vítimas dos fogos de Pedrogão Grande e de solidariedade pelas famílias e bombeiros.
Eu percebo a intenção deste tipo de solenidades, mas, confesso, elas deixam-me sempre uma sensação de desconforto, porque se pretende que representem uma unidade política nacional que não existe e porque é algo forçado, dado que, neste momento, não é de silêncio que as pessoas directamente afectadas mais precisam.
Quando passar o mediatismo deste trágico acontecimento é o silêncio que o vai substituir. Silêncio pesado, insuportável.
É por isso que este minuto antecipado tem, para mim, um sabor demasiado amargo.

HSC